Mesmo tendo em nome profecia de ocaso,
Hei de sobrepor a aflição,
E entoarei meu canto de morte.
Canto este que há de soar indigno e covarde,
Em lugar de apiedante e cavalheiresco,
Aos ouvidos dos guerreiros canibais.
No retorno ao meu povo,
Meu cheiro me trai de tal forma,
Que me leva de novo para o sacrifico,
Do qual fui julgado imprestável.
Mas desta vez fui guiado pelo pai.
As ofensas ao meu povo e a mim,
Despertaram tal fúria que lavei com sangue,
A honra Tupi.
Não com o meu,
Mas com o sangue dos cruéis Timbiras.
Que por um senso de nobreza;
E honra tão impróprios fizeram um pai,
Mal ver o filho, que só lhe tem amor.
Marcos Matos
Jogo atrasado.
Campo alagado.
Uniforme rasgado.
E as torcidas pedem bola.
Chuteira sem cadarço.
Meião furado e desfiado.
Calção folgado e desbotado.
E as torcidas querem ver gol toda hora.
Apito quebrado.
Cartões amassados.
Gandulas amuados.
E as torcidas cantam eufóricas.
Mal sabem elas
Que todos temem a bola.
O que fazer agora?
Quem será o primeiro
A ir domar a caprichosa?
Já que não tem ninguém habilitado,
A solução do juiz
É virar pra torcida
E avisar: jogo adiado.
Marcos Matos
O vento me traz de volta
O teu cheiro de chocolate.
Descubro gravada em minhas pálpebras
Aquela velha imagem,
Daquela noite distante.
O frio desta noite é intenso.
Vejo teu espectro na janela,
Olhando nossas constelações.
Ao meu abraço, você se desfaz.
Fecho os olhos novamente,
Para rir de mim mesmo,
Para mim mesmo,
Este sorriso corretivo.
E de violão no colo,
E caneta na mão,
Volto a escrever,
Nessa jovem página amarelada.
Marcos Matos
Por mais que eu minta,
Entendo sua recusa a abrir os olhos.
Realmente fere.
O risco é grande, e a promessa duvidosa.
Mas algo espera na penumbra.
A mão branca estende-se à espera da tua.
O piano toca,
Regido pela ausência dos teus dedos finos.
O piano ainda toca,
Regido pela ausência dos teus dedos finos.
Mesmo de olhos eternamente fechados,
Você pode sentir o vento que veio guiar-te.
E que uiva em teus ouvidos,
O convite da mão nevada;
Que à espera entre as folhas que caem.
Para unir o solstício de ti;
Com o equinócio que precede-te,
E habita nesta alma.
Marcos Matos
Sempre desejei ter asas.
Porque realizou meu desejo?
Agora posso ir para onde quiser.
Para onde eu vou?
E se eu for e não quiser voltar?
Algo aqui morrerá sem mim?
Ou eu morrerei sem algo daqui?
Posso ir ver outras cidades,
E suas luzes.
Mas como ficarão as daqui?
Posso ver novos sóis se porem.
E novas luas se erguerem.
Posso só sentir as brisas.
Mas e o aqui, onde encaixo?
Querer ir dói.
E querer ficar é triste.
No fim das contas,
Em todo lugar vou estar;
Deserto.
Marcos Matos
Sou filho de Antares.
Minha boca é caixa de Pandora,
E cabeça de Atena.
Meus olhos são buracos de minhoca.
Minha pele é o próprio cosmos.
Minha mão é sutil como Vênus,
E forte como Marte.
Minhas vestes seguem a moda apoliana.
Minha ira é choque entre galáxias.
Meu esquecimento é um buraco negro.
Minha intuição supera Nostradamos.
Meu desejo é o teu Zenit.
Marcos Matos
Minhas cordas pocaram?
Ou seus dedos cansaram de me dar movimento?
Bem, ainda não toquei o baú,
Mas posso sentir ele se aproximando a cada segundo.
Se pudesse ser escolha minha;
Preferia que o problema fosse nas cordas.
Prefiro perde-las a perder seu toque.
Se bem, que dos dois modos eu perderia.
Mas, espero que sua infância passe logo.
Para que nenhum presente novo;
Te tire de outro brinquedo;
Assim como esse aí te tirou de mim.
Marcos Matos